POR QUE O RIO (DE JANEIRO) SEMPRE ALAGA?
- Estúdio Cafi

- 22 de jan. de 2024
- 11 min de leitura
Post por Flávia Figueiredo | Arquiteta e Urbanista

Vista de área residencial inundada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Fonte: G1
Já é fato conhecido há muitos anos que todo verão, seja em Dezembro, Janeiro ou Fevereiro haverá algum tipo de calamidade pública que irá prejudicar parte da população fluminense. Em 2024, não foi diferente. Eu, em duas décadas e meia de vida, como todo carioca, já vi e vivi alguns desses episódios. A primeira delas foi quando eu, com uma semana de vida, fui à minha primeira consulta na pediatra em Jacarepaguá numa tarde do final de dezembro.
Se é certo que depois da tempestade, o sol sempre sai, em um país tropical, depois de um dia de calor intenso, sempre vem a chuva de alta intensidade. E meu primeiro temporal da vida teve direito a chuvas tão fortes e volumosas que a água invadiu o carro, onde estávamos eu, meu pai e minha mãe suturada da cesariana. Não fosse um taxista que passava ali na mesma hora e nos socorreu, não sei o que teria sido de nós e nem se eu estaria escrevendo este texto hoje. Em casa, numa época com escassa comunicação por celular e, logo, sem notícias, meu irmão e minha avó tentavam conter com rodos e panos a água que entrava pela varanda do apartamento. Cada um lutava sua batalha numa parte da cidade.
Esse relato não é incomum: todo carioca ou fluminense já passou por situação semelhante ou conhece alguém que já passou e, neste verão de 2024, não foi diferente. Isso porque esse episódio de destruição provocado pelas chuvas não foi o primeiro e nem será o último das tempestades desta cidade devido a alguns fatores.
Histórias de décadas que (ainda) se repetem hoje
Em 10 de janeiro de 1966, o verão trouxe à cidade uma das piores (senão a pior) chuva de sua história, quando 250 mortos, mais de mil feridos e 50 mil desabrigados mostraram como as chuvas de verão são protagonistas na história do Rio de Janeiro. Dona Irene, que na época tinha 30 anos, disse que “era tanta chuva que não se sabia se era dia ou noite. O que me marcou muito foi que podia ver que os trilhos do trem estavam tomados por muita lama e água. Ninguém passava”. E neste filme que é a história carioca, foi iniciada às pressas a ocupação da recém-construída Cidade de Deus (que em 2002 virou longa metragem nas telonas) sem nenhum planejamento, apenas um remanejamento dos desabrigados das chuvas de 1966 para uma área sem infraestrutura urbana ou social, gerando mais um agravante das calamidades: a expansão da cidade sem planejamento urbano. “Grande parte da cidade ficou sem água e energia ou sistema de transporte. Para quem viveu, o trauma parece que foi ontem, mas ocorreu em 1966.” diz uma testemunha da época.

Pessoas sendo resgatadas em um bote pelos bombeiros no Rio de Janeiro, em 1966. Fonte: EBC
No Réveillon de 2009 para 2010, grandes deslizamentos de terra em Angra dos Reis e Ilha Grande chocaram a todos nós ao deixar 50 mortos e 900 desabrigados logo no primeiro dia do ano, data conhecida por ser de grande celebração no Brasil. Ali, foi um início de ano de muita comoção popular e luto coletivo, especialmente pela morte de 11 pessoas de uma mesma família e o soterramento de uma pousada com mais de 40 hóspedes.
No ano seguinte, em 2011, em Nova Friburgo, na Região Serrana, a chuva foi semelhante a de 1966 no Rio de Janeiro, quando os deslizamentos de terra vitimaram mais de 900 pessoas e deixaram mais de 35 mil pessoas desabrigadas em diversos pontos da cidade, sem distinção de renda atingindo áreas vulneráveis e de maior poder aquisitivo.
Em 2022, nos desesperamos ao ver ao vivo Petrópolis e suas ruas históricas sendo tomadas pela enxurrada de água e lama com a subida do Rio Quitandinha e o desmoronamento do Morro da Oficina que levou a vida de 243 pessoas.
Percebe que é cíclico? O que muda é apenas o local (seja de uma cidade para outra, seja a localidade dentro da mesma cidade), mas a receita é a mesma: calor acima do normal, um volume de chuva esperado para o mês que cai em apenas algumas horas, enchentes, elevação dos rios e um rastro de destruição material e humana. É claro que as mudanças climáticas têm um papel importante nestes eventos, pois se antes víamos esses episódios extremos a cada 20 ou 10 anos, agora eles se tornaram mais frequentes e é certo que os veremos todos os anos a partir de agora.
Nunca foi fácil para nós, ano após ano, assistir a essas cenas e parece que, mesmo com a maior frequência, ainda não normalizamos o fato de perder bens e vidas para algo que claramente poderia ser evitado.
Mas por que ocorrem tantos alagamentos?
O Rio é uma cidade que se desenvolveu entre morros e vales, o que por si só já é um desafio. Para que a cidade pudesse crescer e se expandir territorialmente, foi preciso aterrar, demolir, canalizar e alterar toda a geomorfologia da cidade.
A nível de curiosidade: onde hoje é o Largo da Lapa era a Lagoa do Boqueirão, aterrada em 1783 para construção do Passeio Público; onde hoje é a região do Castelo, havia o Morro do Castelo, o morro onde o Rio de Janeiro começou, mas foi desmontado à jatos d'água; onde hoje é a Praça da Cruz Vermelha, era o Morro do Senado, desmontado no fim do século XIX; onde passa parte da Avenida Presidente Vargas, a Avenida Francisco Bicalho e parte dos bairros da Cidade Nova, Rio Comprido e Praça Bandeira era o Saco de São Diogo, um manguezal de grande proporções que conectava diversos os rios da Bacia do Mangue. Essas são apenas algumas das drásticas alterações geomorfológicas que foram realizadas na cidade e que trouxeram consequências que nos acompanham até hoje.

Imagem aérea do Piscinão da Praça da Bandeira. Fonte: G1
Lembram dos marcantes alagamentos da Praça da Bandeira? Não havia nada de errado com eles, pois era apenas o efeito da topografia da bacia hídrica “devolvendo” as águas para o lugar a que elas sempre pertenceram. De alguma forma, a situação da Praça da Bandeira foi resolvida com a construção dos Reservatórios da Praça da Bandeira, Vanhargem e Niterói, em 2013, com capacidade de 18 milhões de litros. Essa é a solução ideal? Claro que não, pois se pensarmos que a única solução para as enchentes de verão é a construção de enormes piscinões em diversos pontos da cidade, veremos que é uma solução inviável tanto do ponto financeiro quanto infraestrutural.
A vegetação também é importante no controle das enchentes e desmoronamentos. Hoje, temos uma cidade cada vez mais concretada e asfaltada, ou seja, um solo cada vez mais impermeabilizado que impede o escoamento da água. Sempre em busca de lugares para se infiltrar, a água não encontra espaço e começa a se acumular e subir de nível em ruas, avenidas e casas. Ao longo dos anos, houve também uma mudança nos lotes residenciais: se antes possuíam quintais gramados, com árvores e extensa área livre, hoje possuem pouquíssimas áreas permeáveis, a maioria com área concretada ou construída. Ainda que a legislação urbana conte com a Taxa de Permeabilidade, um parâmetro urbanístico que dita o percentual mínimo que um lote deve ter de área disponível para permitir a infiltração da água no solo (seja canteiros de terra, cascalhos, brita, pisos intertravados ou pavimentos fulget), a fiscalização municipal é fraca, especialmente em locais da Zona Norte, Zona Oeste e Baixada Fluminense.
Quanto aos desmoronamentos, a vegetação também atua como uma estrutura de contenção. A Mata Atlântica, bioma predominante no Estado do Rio de Janeiro, tem apenas 20% de sua vegetação original remanescente e perde área para a agropecuária ano após ano. Com isso, onde antes havia árvores e vegetação rasteira, hoje só resta gramíneas que não cumprem o papel de fixação.
Nos centros urbanos, a retirada dessa cobertura vegetal ocorre principalmente pela ocupação irregular das encostas. Isso acontece por haver uma política habitacional ineficiente, que não oferece recursos, nem assistência à população mais vulnerável e as obriga a habitar locais impróprios à moradia, pois é o máximo que podem custear. As construções, além de aumentar o peso sobre o solo, também o tornam mais exposto à infiltração d'água pela retirada da cobertura vegetal (que, quando presente, absorve uma parte d’água para si) e, dependendo do volume, pode saturar o solo, provocando deslizamentos.
Por último, ainda sobre a impermeabilização do solo urbano, até mesmo os rios foram concretados ao serem canalizados e retificados. Ao retirar a mata ciliar, substituí-la pelo concreto e retificar o curso d'água, a velocidade da massa de água aumenta (pelo fato de não infiltrar pelas laterais, ter um volume maior e não ter curvas para reduzir a velocidade). Ainda que a canalização não seja feita, quando a mata ciliar é retirada das margens destes rios, os sedimentos do entorno dele levam ao assoreamento deste corpo hídrico, reduzindo a profundidade de seu leito e levando ao transbordamento do mesmo em caso de fortes chuvas.

Corte demonstrando rio com margens permeáveis e rio com margens concretadas. Fonte: ArchUrbs
O último ponto tem como causa o lançamento de esgoto in natura nos corpos hídricos e a ausência de tratamento de esgoto na maior parte da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de 73% da população da capital ter acesso a coleta de esgoto, apenas 42% desse volume é direcionado à uma estação de tratamento, segundo um estudo realizado pela Agência Nacional de Águas (ANA). ”O esgoto jogado na natureza é tanto que os rios não dão conta de absorver o material. O resultado é o aumento da poluição e a impossibilidade de usar a água para o abastecimento humano”, de acordo o estudo.
Além de contaminar os corpos hídricos, comprometendo a vida e o uso dessas águas, a decomposição da matéria orgânica presente no esgoto é depositada no leito dos rios, iniciando um processo de assoreamento. Com isso, a profundidade de rios e lagoas é reduzida e, se antes este rio ou lagoa comportava um volume X de água, esse volume será gradativamente reduzido conforme mais esgoto for lançado ali. Hoje, para mitigar essa questão, são feitas dragagens para retirar a matéria sedimentada nos leitos, mas é uma prática de “enxugar gelo”, pois enquanto o sistema de coleta e tratamento de esgoto não for implementado, essas medidas paliativas servirão apenas para consumir dinheiro público.
Apesar do cenário de inúmeras e complexas problemáticas, existem recursos e ferramentas que podem resolver ou, ao menos, minimizar a situação atual em que o Estado se encontra.
Mudanças estruturais precisam ser tomadas
Apesar do cenário apresentar inúmeras e complexas problemáticas, existem recursos e ferramentas que podem resolver ou, ao menos, minimizar a situação atual em que o Estado se encontra. As principais delas são:
Elaborar e aplicar uma política habitacional que atenda as demandas atuais
A habitação é um problema crônico das grandes cidades e o Rio vem lidando com essa questão sem resolvê-la há alguns séculos. Por um crescimento desordenado (com remoções, falta de assistência e ocupação das encostas), hoje, a cidade como um todo colhe os frutos da ausência do Estado na sua expansão com a ocupação de encostas inadequadas à moradia, áreas com solos instáveis e residências humildes na área de mata ciliar dos rios - as primeiras a serem levadas em caso de inundação.
É preciso que Prefeitura e governo do estado se unam na fiscalização e ofereçam alternativas seguras à população em relação à moradia. Simplesmente remover famílias em situação de risco para conjuntos habitacionais distantes não é o suficiente, pois o local de moradia está ligado às relações interpessoais desenvolvidas naquele lugar, à rotina da família, às formas de subsistência e outras questões. Projetos de realocação de residências nas Zonas Norte e Oeste que hoje se encontram em áreas suscetíveis a alagamentos para um raio de, no máximo, 400m já foram desenvolvidos. A teoria dos dados, estudos de viabilidade e projetos já está pronta para muitos casos, o que falta é a vontade política de pôr em prática ações que irão melhorar a qualidade de vida da população e, muitas vezes, salvar vidas.
Renaturalizar rios canalizados
Depois da adequação das moradias para áreas habitáveis, a renaturalização dos rios é a que mais causa impacto visual. Retirar o concreto das margens dos rios e trazer terra e vegetação tornará as margens permeáveis, oferecendo espaço para a água infiltrar no solo e reduzir a velocidade dos rios em dias de chuva forte, quando há um grande volume correndo por ele.
Além disso, é possível utilizar a vegetação implantada nas margens como solução verde para realizar a limpeza dos rios sem utilizar agentes químicos. Um dos exemplos são os “Biopods” canteiros flutuantes de micélio com plantas nativas da região estudados pelos alunos da Escola de Design de Rhode Island (RISD)

Renderização mostrando a futura Chicago Riverwalk. Fonte: ArchDaily
Propostas como essa já vêm sendo aplicadas na China, Coreia e Estados Unidos, bem como propostas para o Brasil já foram concebidas. Além da renaturalização, muitas propostas incluem também a transformação das margens dos rios e lagoas em grandes áreas de lazer e estar na cidade, como a proposta do Chicago Riverwalk.
Retardar o escoamento água
Um dos fatores que mais contribui para o acúmulo de água nas vias é a impermeabilização do solo através do concreto. É muito importante aumentar as áreas permeáveis nas cidades e uma dessas formas é através da implementação de telhados verdes em prédios residenciais e comerciais, podendo haver até algum tipo de incentivo fiscal para aqueles que adotassem esse recurso. Outra ferramenta muito bem-vinda é a construção de jardins de chuva ou alagados construídos em ruas que conhecidamente costumam alagar. Os jardins de chuva atuam como mini-reservatórios para onde as águas pluviais são direcionadas, contribuindo com a limpeza, a infiltração das águas e a redução do escoamento da mesma.

Oficina de confecção de um jardim de chuva na Lapa, Rio de Janeiro. Fonte: ArchDaily
Readequar o sistema de esgoto do Estado
Como relatado, o Estado do Rio de Janeiro coleta 73% do esgoto produzido, mas trata apenas 42% em estações de tratamento de águas residuais. O mais recomendado é que o governo do estado faça um investimento massivo na construção de estações de tratamento de águas residuais e adequação da tubulação de esgoto, de forma a cessar com o lançamento in natura de esgoto em rios e lagoas.
Com essa ação, os corpos hídricos poderão ser revitalizados através de dragagens (definitivas), proporcionando leitos mais profundos e redução no número de transbordamentos, já que haverá espaço para o volume d'água se acomodar. Além disso, após o tratamento nas estações de águas residuais, o esgoto será transformado em água de reuso, podendo ser devolvido a rios e lagoas sem prejuízos ao meio ambiente e a nós.
Propor arquiteturas resilientes para áreas suscetíveis a alagamentos
Por arquiteturas resilientes, entendemos arquiteturas que se adaptam às diferentes condições ambientais, como, por exemplo, as palafitas ribeirinhas da Região Norte ou as vilas flutuantes do Camboja. Esse tipo de arquitetura se adequa tanto em situações de seca, como em situações de cheia dos rios, sem que as construções sejam destruídas ou danificadas, bem como os bens internos. Se começarmos a investir neste modelo de arquitetura, cenas como as que vemos em todo verão de família perdendo todos os seus bens poderão virar história
Produzir projetos urbanos que se adaptem ao meio sem rasgá-lo
A era das grandes cirurgias urbanas pertence ao século XX. Para o século XXI, buscamos um urbanismo mais “gentil” com o meio que habitamos, respeitando-o, nos adaptando e fazendo mudanças pontuais. Viadutos são soluções de extrema necessidade, optando-se pelos mergulhões. Rios e lagoas não são mais aterrados ou escondidos, mas revelados e exaltados. Áreas verdes não são mais desmatadas, mas preservadas e replantadas. Diversos exemplos dessa nova fase do urbanismo já podem ser encontrados pelo mundo, como na Suécia e inclusive no Brasil, com o Parque Rachel de Queiroz, em Fortaleza (CE).

Vista aérea do Parque Rachel de Queiroz e suas lagoas em Fortaleza, Ceará. Fonte: ArchDaily
A população mais pobre e vulnerável é a que mais sofre
Entendendo algumas das causas e como essa questão pode mudar, é urgente solucionar ou, ao menos, buscar amenizar os impactos das chuvas no Estado do Rio de Janeiro, pois a tendência é de piora. "Não é uma questão da falta de ferramentas. O que falta é uma melhor integração entre as defesas civis, as prefeituras, o governo estadual e o governo federal quando ocorrem eventos climáticos extremos.", como diz o especialista em mudanças climáticas, Paulo Artaxo.
É perceptível também em todos esses eventos que a população que mais sofre com esses eventos é a população de baixa renda, seja por morarem em áreas inadequadas à habitação ou por demorarem mais tempo para reconstruir suas vidas após a tragédia. Pode-se dizer que também há um racismo ambiental, onde ocorre a degradação das condições socioambientais afetando as minorias sociais. É nítido que, ainda que haja uma enchente em uma área nobre, sua população provavelmente sofrerá menos perdas materiais do que a população dos subúrbios e da Baixada.
Esperamos que quando as águas de março fecharem o verão, não fechem também a memória do carioca bem como a dos seus governantes, pois em dezembro de 2024, teremos novamente episódios como este.
Existem meios de consertar o Rio de Janeiro, pois diversas propostas já foram desenvolvidas nas universidades e em concursos. Na verdade, o que falta é vontade política para mudar a realidade da população fluminense, pois aqueles que canetam as decisões não sofrem as consequências de viver em uma cidade despreparada para as mudanças climáticas.


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